A fronteira é política e a raia define-se num plano sentimental. O que eu disse em Évora sobre o que assisti em Zafra.

27 Outubro 2026

Estive três dias no «Recinto Ferial» de Zafra, em Badajoz, a participar no IX Fórum Cultura e Ruralidades, a que foi dado o nome «Geografias Compartidas». Uma iniciativa do Ministério da Cultura de Espanha (20 a 22 de Outubro). Eu, a Elisabete Tomaz (Buinho -Creative Hub, na Messejana) e a Alexandra Libânio (Cooperativa Casa Branca - comunidade criativa e experimental, em Montemor-o-Novo), na qualidade de relatoras do evento, dividimos o trabalho e a participação nas sessões por cada uma de nós de acordo com as nossas preferências intelectuais e perfil profissional. Explicar que nos cabia observar os três dias em Zafra para depois ao quarto dia relatar em Évora, no âmbito do Laboratório Ibérico de Cooperação Cultural nos Territórios de Baixa Densidade. O convite-desafio foi-nos encarregue pelo Centro de Informação Europa Criativa em Portugal e pelo Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais, que preparam este Laboratório em conjunto com a Universidade de Évora e o projeto «Évora_27» - Capital Europeia da Cultura.

Comecei logo por ouvir o primeiro diálogo, «Geografías compartidas: narrar, habitar y pensar la frontera». Foi um embalo determinante. Através das palavras de Eloy Enciso, realizador de Arraianos, reconheci-me no magnetismo que a raia pode ter em nós.

O moderador, Antonio Sáez Delgado, perguntou-lhe se, com o filme, tinha feito os habitantes da raia reconhecerem o lugar que lhes pertence. A resposta foi paradigmática: quem descobriu a raia e tudo o que ela simboliza foi o próprio Eloy.

Não poderia ter começado melhor. Todos os convidados daquela mesa nos preparavam para a pergunta: o que é, afinal, a raia? Podemos entrar num plano filosófico. Mas ficou claro que, em Zafra, quando falávamos de raia, não falávamos necessariamente de fronteira.

A fronteira é uma criação política, mais líquida ou mais seca. Define-se no mapa. A raia define-se num plano sentimental. Como me disse em entrevista um dia o professor António Covas, especialista em Assuntos Europeus, falamos de uma «Geografia Sentimental». E, ao longo dos dias, foi-nos dada a oportunidade de desenhar um verdadeiro mapa dessa geografia.

Conhecemos projetos vários e percebemos que a ruralidade nem sempre é definida por decreto. Não há uma normativa que nos diga onde a ruralidade nos limita ou nos expande quando o tema é produzir cultura a partir da ideia de rural. E não é à toa que o título do fórum nos convoca para a ideia de ruralidades.

Aos fazedores da arte e da cultura não deve passar ao lado que um espaço rural não tem de se limitar ao passado. Projetar o futuro é ter uma ideia de presente e a intenção de respeitar o legado que se quer prolongar e transformar. Mas, tal como falava o cineasta que citei, há muitas camadas para descascar, e vamos surpreender-nos pelo caminho.

Promover a participação das pessoas que vivem nos meios rurais deve ser uma exigência ética. Porque não vamos ocupar um lugar que já está ocupado. Podemos juntar-nos, criar sinergias, cooperar. A orgânica de um lugar vive de um pulsar vivo que pode ser nutrido por quem chega e sente amor pelo território. Mas não devemos usar a participação como instrumentalização para desenvolver projetos.

Os territórios não têm, mas deveriam ter, uma placa à entrada que avisasse: «É proibido manietar!».

Por isso resultam os projetos que se apaixonam pelos territórios e se ligam às suas gentes com entendimento e respeito, seja em que escala for. A arte pode reverter o sentimento de abandono e silenciamento de muitas comunidades rurais. Mas essas comunidades já há muito tempo clamam por atenção. Lá existem as melhores tradições do mundo, os rituais mais envolventes, as histórias mais emblemáticas. São capitais de autoafirmação e autodeterminação. Mesmo que ninguém ainda as tenha escutado de verdade.

Surpreendeu-me saber (e não o sabia por ignorância) que o Ministério da Agricultura, Pesca y Alimentación de Espanha tem um forte empenho no apoio à cultura das zonas rurais. Partindo da ideia de que a agricultura é a base, importa valorizar a cultura rural que dela nasce. Técnicos deste ministério, do Ministerio para la Transición Ecológica y el Reto Demográfico e do Ministério da Cultura vieram de Madrid a Zafra para alertar que os países do Sul precisam de cooperar mais na elaboração do novo PAC Europeu, para que não esqueça o papel da cultura no mundo rural. Não sabemos se essa cooperação terá resultados práticos. Perguntei que papel podem ter as Eurorregiões como porta-vozes da administração pública e da sociedade civil junto de Bruxelas. Não vim esclarecida, e deixo a questão a pairar no ar.

O contínuo despovoamento está a vagar lugares. Mesmo assim, há muitos projetos a enfrentar essa fatalidade demográfica para fazer nascer outras vivências. São, muitas vezes, projetos de pequena escala. Muito pequena. E quantas vezes os promotores se sentem abandonados à sua sorte. A sorte é que têm resiliência. Mas são afetados pela precariedade e pela insustentabilidade financeira; circunstâncias muito sublinhadas em Zafra.

Às vezes o projeto passa pela ideia «simples» de recuperar muros de pedra e complementá-los com arte contemporânea. É o caso dos Muretes de Arte.

Para que servem muros?

Neste caso, para nos encostarmos neles e criarmos um novo ponto de encontro. E estas ideias simbólicas serviram, em Zafra, para nos lembrar de que andamos todos muito desencontrados.

Nem todos os projetos têm a capacidade, ou a ambição, de promover a cooperação transfronteiriça. Trabalham de um lado da fronteira. Mas, ao revitalizarem a raia, abrem caminho para o próximo passo: espreitar o vizinho e perceber o que acontece do outro lado. Da curiosidade à conexão é um instante. Quando damos por nós, já criámos uma rede. Mais formal ou mais informal, mas as redes vão nascendo e a massa crítica surgindo.

E, às vezes, como nas relações mais bonitas, é depois de estarmos juntos que nos perguntamos porque é que estivemos tanto tempo separados.

Mas conseguirão os projetos culturais nas ruralidades contribuir para o combate ao despovoamento? Identificámos projetos cujos promotores acreditam que sim, de um modo empírico. Mas devo dizer: não há evidências.

Em Zafra foi dito que é urgente ativar mecanismos de medição do impacto social destes projetos. E foi aí que a resposta da Sofia Pancada, do projeto Záguia Sul Guarda-Rios, me deu horizonte. A cultura, disse ela, não provoca sozinha essa atração. Tem de estar alicerçada a outros direitos básicos: a saúde, a educação e a habitação.

E há uma ideia que nos deve fortalecer: territórios de baixa densidade não são, necessariamente, territórios de baixa intensidade cultural e artística.

Foi mágico perceber, através do diálogo «Cartografias da Palavra: diversidade linguística, cultural e território», que se tudo falhar, a língua não falha porque circula entre as gentes. Do lado espanhol, há muitas iniciativas para reavivar as línguas cooficiais e minoritárias. O trabalho, nomeadamente, da RTVE [Rádio e Televisão de Espanha] é exemplificativo do esforço de inclusão de quem se estimula através da ancestralidade da palavra e da língua. Do lado português, vimos como o mirandês se vai afirmando em obras literárias, traduções e ensino.

Foi reenergizante ouvir a escritora Adelaide Monteiro, ativista do mirandês. Cresceu num ambiente de estigma. Falar mirandês era falar mal o Português. O trabalho feito por ela e por outras pessoas transformou o lugar do estigma num atual orgulho incomensurável.

A língua pode ser vista como o último reduto? A língua tem o mundo inteiro dentro. E há muitos investigadores no terreno ibérico a fazer um trabalho etnográfico e antropológico extraordinário. Se alguém quiser apostar nesta área, fica a dica. Desde logo começar por conhecer o projeto Frontera hispano-portuguesa (FRONTESPO) onde está a ser reunida a documentação linguística exaustiva da franja fronteiriça entre Espanha e Portugal

Zafra mostrou-se como um paraíso da diversidade, capital das ruralidades e janela para esse mundo que tantos e tantas de vós amam. Foi lá que várias vezes se disse que a «Cultura é inegociável».

Mas as ruralidades podem ser lugares onde a sustentabilidade financeira dos projetos é mais difícil. Onde os agentes sentem de perto a precariedade. Por isso, foi em Zafra que conhecemos programas de financiamento à produção cultural e artística no meio rural, com uma visão de cooperação transfronteiriça mais apurada.

Soube-me como um autêntico fio condutor a questão debatida pelos Grupos de Ação Local: encarar a cultura e a arte como um bem essencial e identitário dos territórios de baixa densidade. Houve um apelo para que os artistas e agentes culturais olhem mais para os GAL como potenciais financiadores da arte e da cultura do Mundo Rural. Pesquisem sobre as Aldeias de Bem-Estar que estão em desenvolvimento e percebam o potencial da arte neste programa. Contactem a Federação MINHA TERRA e digam que vão da nossa parte!

Quantas vezes se falou, no evento, de estimular a massa crítica das pessoas que habitam na raia. Eu diria que Geografias Compartidas foi uma oportunidade para estimular a massa crítica dos agentes culturais e dos artistas. Só assim se intervém nos lugares em consciência, em serviço, com cuidado e com os olhos postos numa cooperação contínua.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

“Se eu conseguir focar as cinco letras da palavra MUROS será maravilhoso. Mas muitos milhões juntos conseguiremos focar frases inteiras”.
co-financiado por:
Contactos
(+351) 964 211 557
Chamada para rede móvel nacional
Subscreve-te à newsletter
Subscription form
Proprietária: Delaurent - Turismo, Comunicação e Consultoria, Lda
Sede: Sítio do Malhão Cx Pt 272, 8950-191 Castro Marim - Portugal
Detentores de Capital: Alexandre Laurent - Gerente (50%) e Susana Helena de Sousa (50%)
NIF: 509106811 _ | _ Número de registo na ERC: 128010 _ | _ Periodicidade: anual
Directora / Editora-executiva: Susana Helena de Sousa
Sede da Editora e Redacção: Sítio do Malhão Cx Pt 272, 8950-191 Castro Marim - Portugal
Estatuto Editorial
Todos os Direitos Reservados © 2022 - 2026 MUROS | Design por
BOTODACRUZ