O «último grito» da economia circular teve palco em Cachopo, em plena Serra do Caldeirão

Junho 11, 2024
No passado dia 8 de Junho, o «Espaço do Cidadão» da Aldeia de Cachopo, concelho de Tavira foi palco de confeção de um autêntico «Fashion Day»  vanguardista. Os bastidores de um trabalho disruptivo e que criou bastante impacto na comunidade, apesar de em tão curto espaço de tempo. No café a conversa surgia com a curiosidade sobre o que eram aquelas «novas modas» que por ali paravam. O frenesim para que tudo corresse na perfeição nas celebrações do Dia Mundial do Ambiente era visível. Paula e Teresa cumpriam os seus objetivos enquanto organizadoras da parte da Junta de Freguesia e da Associação de Festas local.

Pelo mundo fora não há dúvida que é preciso colocar as pessoas a encontrarem-se com uma vida mais sustentável quotidianamente. Numa aldeia como Cachopo é importante, sobretudo, dizer aos habitantes que são eles muitas vezes os primeiros a recuperar, reciclar, reutilizar e a repensar. Ou seja, são eles que estão na dianteira de comportamentos sustentáveis. É assim que se caracterizam também os lugares de escassez e com problemas de Interioridade. Trazer o tema da Economia Circular para celebrar o Dia Mundial do Ambiente [oficialmente celebrado a 5 de Junho]  foi uma aposta da organização que pretende todos os anos  “que esta celebração se torne memorável”. É preciso dar centralidade a Cachopo. É preciso dar centralidade à serra do Caldeirão. Foi o que aconteceu no passado sábado. E saltaram-se inúmeros muros num dia só.

Desde a recolha de lixo à música, passando por moda e tertúlia

Houve recolha de lixo com a ajuda da população, entre ela caçadores dos clubes da freguesia. Entabulámos uma conversa que apesar de curta deu para entender que os efeitos nocivos das alterações climáticas já se fazem sentir. “Há menos caça e há menos caçadores. As pessoas deixam de estar associadas aos clubes porque o clima está muito diferente o que tem vindo a reduzir o número de lebres e de perdizes, nomeadamente”, contam-nos.

Caçadores dos clubes da freguesia de Cachopo foram essenciais na recolha de lixo. Queixam-se das dificuldades da atividade devido às alterações da biodiversidade.

Foram recolhidas cerca de tonelada e meia de lixo.

Em frente ao lugar desta conversa, em pleno Largo dos Bombeiros, estava o atelier improvisado de upcycling. O dia foi dedicado a reciclar camisas. Dessa reciclagem e para futura utilização nasceram saias, calções, blusas, jaquetas e muita criatividade.

Teresa Cavaco, voluntária da Associação de Festas de Cachopo, empenha-se num trabalho de envolvimento coletivo da comunidade.

Da parte da Junta de Freguesia de Cachopo, Paula Gonçalves (ao centro) acompanhou de perto o trabalho criativo e delicado destas senhoras que cederam o seu tempo em prol da Economia Circular

Tertúlia juntou perspetivas diferentes em torno da importância da Economia Circular e dos Mercados Secundários

O almoço foi comunitário e embalou para uma tarde com muito «sumo». A partir das 15h teve lugar, na Fonte Férrea, a tertúlia dedicada à Economia Circular e aos Mercados Secundários onde três convidados com perspetivas completamente diferentes apresentaram inúmeros tópicos sobre a emergência que existe em adaptar o nosso mundo a uma economia amiga do ambiente. Recorde-se que a Economia circular é apresentada como um conceito estratégico que se baseia na prevenção, redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e de energia. Ou seja, é a alternativa ao conceito de «fim-de-vida» da economia linear, promovendo novos fluxos circulares de reutilização, restauração e renovação. Atualmente, a Economia circular é vista como um elemento-chave para promover a dissociação entre o crescimento económico e o aumento no consumo de recursos, relação tradicionalmente vista como inexorável. Por exemplo, nunca é demais recordar que a economia circular ao nível do setor têxtil está empenhada em tornar-se mais sustentável. Por exemplo, no que diz respeito aos jeans, que são grandes consumidores de recursos na sua produção, o objetivo é torná-los mais usados, mais feitos para serem refeitos e mais feitos a partir de materiais seguros e reciclados e/ou renováveis. Refira-se que o têxtil é ainda dos mercados secundários menos desenvolvidos.

Coube à nossa diretora a moderação da tertúlia. (Da esq.ª para a D.tª)Cristina Guerreiro, Sónia Pires e Fernando Perna.

Cristina Guerreiro é artista plástica, produtora e empresária. A diretora da marca «Konceito-r» abriu há 13 anos uma loja de recycling em Faro, ou seja, neste caso uma loja de roupa em segunda mão que ao fim de 10 anos começou a acolher também modelos de upcycling; uma reutilização criativa da roupa.  Um dos grandes muros ao desenvolvimento da atividade de Cristina é uma legislação ainda inexistente que provoca uma grande entropia na atividade. Esta empresária partilhou que aguarda “há mais de dois anos por licenciamento”, que não sabe quando chegará a ter. Os seus clientes são na esmagadora maioria (80%) estrangeiros, revelando o caminho que o recycling e upcycling ainda tem de fazer no Algarve.

Tendo noção destas dificuldades, Fernando Perna, docente de Economia na Escola Superior de Gestão de Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve recordou que é sempre preciso mudar as mentalidades e os comportamentos e que só esta mudança trará a verdadeora mudança legislativas. “Os empresários já perceberam a importância de adoptarem modelos de negócios que previnam o desperdício e que promovam a circularidade da economia. É preciso continuar um caminho que já está em andamento”, defendeu o docente.

A tertúlia foi muito participada

Com um olhar muito focado no consumidor final, a câmara municipal de Tavira, que na tertúlia esteve representada pela vereadora do ambiente, Sónia Pires, deu conta de dois projetos desenvolvidos que têm como grande objetivo sensibilizar para a necessidade de “introduzir circularidade nos comportamentos”. Trata-se do projeto «Fora do Lixo» que já desenvolveu atividades na área da compostagem, bem como no consumo e hábitos na higiene menstrual. A autarca salientou a importância de auscultar a população, esclarecer as suas dúvidas, ouvir as suas preocupações e “adaptar os projetos a uma economia circular que precisa do contributo de todos”.

As pessoas que estiveram na tertúlia ouviram atentamente, mas também participaram e colocaram as suas questões, fazendo as suas análises. Foi reiterada a vontade de levar a cabo “mais conversas deste género”, evocando-se, claramente, para a informalidade e para a urgência de debater temáticas que muitas vezes se esfumam nos conceitos. As participantes do atelier da upcycling mostraram-se “bastante contentes e motivadas a fazer mais”.

De seguida houve lugar para a passagem de modelos, entre elas com as roupas criadas em modo upcycling de manhã, numa criação coordenada pela Cristina Guerreiro e executada pelas  «artesãs» de reutilização de roupa criativa cachopenses.

Veja as imagens do desfile de moda de upcycling feitas pelas mãos das artesãs cachopenses

A música do artista Marc Noah fechou em grande um dia intenso que deixou um importante impacto na comunidade.

Marc Noah encerrou o dia de celebração do Ambiente. O auditório privilegiado da Fonte Férrea encheu-se tambbém para este momento.

 

 

 


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